John Steinbeck compreendia bem o milagre que transforma em pão a semente, a água, e o modesto chão — mistério tão menos bem cotado do que o da transubstanciação mas tão mais importante. Este é um clássico intemporal, perdoe-se-me a redundância, porque o autor sabia de terra, sabia de chão, e porque tratava o povo por “nós”. As Vinhas da Ira transborda de verdades perenes.

É pois difícil resumir esta obra sem que a tentativa de análise resulte num exame superficial, a menos que, à boa maneira do Jorge Luís Borges, o resumo tivesse tantas palavras quanto o original. Por isso, opto por transcrever na íntegra um dos capítulos, o Capítulo XIV. N’As Vinhas da Ira (que felicidade os nossos tradutores terem ido além da tradução literal do título original, “The Grapes of Wrath”!), cada capítulo é seguido por um capítulo-interlúdio, que faz a ponte para o seguinte; o que transcrevemos abaixo é um desses interlúdios. Trata-se de um dos capítulos mais curtos mas também porventura aquele que mais diz do que John Steinbeck nos tem a dizer.
Capítulo XIV
Inquietavam-se as terras do Oeste sob os efeitos da metamorfose incipiente. Os Estados ocidentais sentiam-se inquietos como os cavalos antes da trovoada. Os grandes proprietários inquietavam-se, pressentindo a metamorfose, sem atinarem, no entanto, com a sua natureza. Os grandes proprietários atacavam o que lhes ficava mais próximo: o governo de poder crescente, a unidade trabalhista cada vez mais firme; atacavam os novos impostos e os novos planos, ignorando que todas essas coisas são efeitos e não causas. As causas escondiam-se bem no fundo e eram simples — as causas eram a fome, a barriga vazia, multiplicada milhões de vezes, fome na alma, fome de um pouco de prazer e de um pouco de tranquilidade, multiplicada milhões de vezes; músculos e cérebros que ansiavam por crescer, trabalhar, criar, multiplicados milhões de vezes. A última função clara e definida do homem — músculos que querem trabalhar, cérebros que querem criar para além das simples necessidades — isto é o homem. Construir um muro, construir uma casa, um dique, e pôr nesse muro, nessa casa, nesse dique algo do próprio homem, é retirar para o homem algo desse muro, dessa casa, desse dique. Obter músculos fortes à força de os mover, obter linhas e formas elegantes pela concepção. Porque o homem, ao contrário de qualquer coisa orgânica ou inorgânica do universo, cresce para além do seu trabalho, galga os degraus das suas próprias ideias, emerge acima das próprias realizações. E isto o que se pode dizer a respeito do homem. Quando as teorias mudam e caem por terra, quando as escolas filosóficas, quando os caminhos estreitos e obscuros das concepções nacionais, religiosas, económicas, se alargam e se desintegram, o homem arrasta-se para diante, sempre para a frente, muitas vezes cheio de dores, muitas vezes pelo caminho errado. Tendo dado um passo à frente, pode voltar atrás, mas apenas meio passo, nunca o passo todo que já deu. Isto é o que se pode dizer do homem: dizer-se e saber-se. Isto verifica-se quando as bombas caem dos aviões negros sobre a praça do mercado, quando os prisioneiros são tratados como porcos imundos e os corpos esmagados se esvaziam imundos, na poeira. Pode verificar-se deste modo. Não tivesse sido esse passo, não estivesse vivo no pensamento o desejo de avançar sempre, essas bombas jamais cairiam e nenhum pescoço teria nunca sido cortado. Receiem-se os tempos em que as bombas não caiam enquanto existam os bombardeiros, pois que cada bomba é uma demonstração de que o espírito ainda não morreu. E receiem-se os tempos em que as greves cessem, enquanto os grandes proprietários viverem ainda, pois cada greve vencida é uma prova de que se está dando um passo. E isto pode saber-se — receiem a hora em que o homem não queira sofrer mais e morrer por um ideal, pois que esta é a qualidade base da Humanidade, é o que a distingue entre todas as coisas do Universo.
Os Estados ocidentais inquietavam-se sob os efeitos da metamorfose incipiente, Texas e Oklahoma, Kansas e Arkansas, Novo México, Arizona, Califórnia. Uma família isolada mudava de terra. O pai pedira dinheiro emprestado ao banco e agora o banco queria as terras. A Companhia das Terras — é o banco quando ela possui terras — quer tractores em vez de pequenas famílias nas terras. Um tractor é mau? A força que grava os profundos sulcos na terra é uma força errada? Se esse tractor fosse nosso — não meu, nosso — prestaria. Se esse tractor produzisse os sulcos na nossa própria terra, certamente estaria certo. Não nas minhas terras; nas nossas. Então, sim, gostaríamos do tractor, como gostávamos das terras quando ainda eram nossas. Mas esse tractor faz duas coisas diferentes: revolve as terras e expulsa-nos delas, Não há quase diferença entre esse tractor e um tanque. Ambos expulsam os homens que lhes barram o caminho, intimidando-os, ferindo-os. Há que reflectir sobre isto.
Um homem, uma família expulsos das suas terras, esse veículo enferrujado arrastando-se, rangendo pela estrada, rumo ao Oeste. Eu perdi as minhas terras; um tractor, um só, roubou-mas. Estou sozinho e desnorteado. E uma família pernoita numa vala e outra família chega e as tendas surgem. Os dois homens acocoram-se no chão sobre os calcanhares e as mulheres e as crianças escutam em silêncio. Aqui está o nó, ó tu, que odeias as mudanças e temes as revoluções. Mantém esses dois homens afastados, faz com que eles se odeiem, se receiem, desconfiem um do outro. Porque aí começa aquilo que tu receias. Aí é que está o germe do que te apavora. E o zigoto. Porque aí transforma-se o «eu perdi as minhas terras» rompe-se uma célula e dessa célula rota brota aquilo que tu tanto odeias: o «nós perdemos as nossas terras». Aí é que reside o perigo, pois que dois homens nunca se sentem tão sozinhos e tão abatidos como um só. E desse primeiro «nós» nasce algo muito mais perigoso: «eu tenho algum pão» mais «eu não tenho nenhum.» E o resultado desta soma é: «Nós temos alguma coisa». Então, a coisa toma um rumo; o movimento passa a ter um objectivo. Basta, nessa altura, uma pequena multiplicação e esse tractor, essas terras são nossas. Os dois homens acocorados numa vala, a pequena fogueira, a carne a fritar numa frigideira comum, as mulheres caladas, de olhos fixos; atrás, as crianças escutando com o coração palavras que o seu cérebro não alcança. A noite desce. A criança constipa-se. Olhe, tome esse cobertor. É de lã. Pertenceu a minha mãe. Tome, fique com ele para a criança. Sim, é aí que tu deves lançar a tua bomba. É este o começo da passagem do «eu» para o «nós».
Se tu, que tens tudo o que os outros precisam de ter, puderes compreender isto, saberás também defender-te. Se tu souberes separar causas de efeitos, se souberes que Paine, Marx, Jefferson, Lenine, foram efeitos e não causas, sobreviverás. Mas isso é que tu não podes compreender, pois que a qualidade da posse te cristalizou para sempre na fórmula do «eu» e para sempre te há-de isolar do «nós».
Os Estados ocidentais inquietam-se sob os efeitos da metamorfose incipiente. A necessidade é um estimulante da concepção; a concepção, o estímulo para a acção. Meio milhão de homens caminha pelas estradas; um milhão mais se prepara para a caminhada; dez milhões mais sentem as primeiras impaciências.
E os tractores abrem sulcos e sulcos nas terras abandonadas.


