Uma questão fundamental iluminou a vida pessoal e profissional de Michael Parenti: quem exerce o poder, como o exerce, ao serviço de quem? Parenti, que nos deixou aos 92 anos, destacou-se enquanto intelectual não pelo seu mediatismo, mas pela sua clareza moral e um compromisso inabalável com a justiça e a verdade.
Parenti, que sempre recusou recusou explicações superficiais e narrativas confortáveis, foi um crítico destemido do poder que fundamentou a sua análise na história e nas estruturas económicas que moldam as instituições políticas e culturais. A 24 de Janeiro de 2026, Michael Parenti ingressou, como descrito pelo seu filho - Christian - na “grande sala de aula no céu”, onde a sua voz desafiadora continuará a ecoar por gerações.
Os primeiros anos, educação e ostracização
Parenti nasceu a 30 de Setembro de 1933, em East Harlem, Nova Iorque, no seio de uma família de imigrantes italianos de classe trabalhadora. As condições deploráveis e discriminatórias enfrentadas pelos seus pais, bem como a realidade socioeconómica da crise capitalista dos anos 30 em que cresceu, influenciaram profundamente a sua análise materialista do mundo e a sua crítica às dinâmicas de poder do capitalismo. Michael Parenti chegou a recordar numa palestra as lágrimas do seu pai por não conseguir ler o livro Power and the Powerless, que Parenti dedicou ao pai.
Após concluir o ensino secundário, trabalhou durante vários anos até eventualmente regressar aos estudos, vindo a obter em 1955 a licenciatura no City College of New York, seguida de um mestrado na Universidade de Brown, em 1957, e, finalmente, um doutoramento em Ciência Política pela Universidade de Yale, em 1962.
Em maio de 1970, a Guarda Nacional do Ohio assassina quatro estudantes em Kent State e fere outros nove que protestavam contra a guerra no Vietname. Parenti, então professor associado na Universidade de Illinois, junta-se também aos protestos, acabando brutalmente espancado e numa cela, durante dois dias, acusado de agressão agravada contra a polícia estadual, além de conduta desordeira e resistência à detenção. Apesar de vários testemunhos ilibatórios, o juíz considerou-o culpado de todas as acusações. A condenação foi um recado e custou-lhe a presença na academia tradicional. Após a não renovação do seu contrato na Universidade de Illinois, mudou-se para Burlington para leccionar na Universidade de Vermont e apesar do apoio unânime do seu departamento, acabou por ver o conselho administrativo anular a contratação devido à pressão política.
A mensagem não podia ser mais clara: as opiniões políticas e o activismo de Michael Parenti faziam dele persona non grata nos meios académicos.
Da sala de aula ao sucesso na internet
Afastado do percurso universitário, Parenti optou por fazer algo completamente diferente: levar a sala de aula directamente ao povo. Com o tempo, Parenti tornou-se um educador extraordinário e muito antes da internet e das redes sociais já as suas palestras circulavam em gravações compartilhadas de mão em mão. O seu estilo relaxado e envolvente, a sua acutilância intelectual e capacidade para a ironia permitiram transformar análises densas em exposições claras, sem que isso implicasse o sacrifício do rigor e da profundidade.
Nas muitas palestras dadas ao longo da sua vida, ensinava que democracia formal não equivale necessariamente a democracia substantiva; que eleições periódicas não anulam a influência desmesurada do capital sobre o Estado; que a linguagem da liberdade e dos princípios humanitários pode ser usada para justificar a dominação; e que o imperialismo raramente se apresenta com esse nome. Em Michael Parenti encontramos uma combinação rara de erudição e acessibilidade.
Com a chegada da internet, os seus discursos e palestras ganharam nova vida online, alcançando um público universal que de outra forma dificilmente teria acesso à sua obra. Quem, como eu, descobriu Michael Parenti através do youtube, recorda hoje com saudosismo a mesma energia com que ele combatia as estruturas oligarcas do poder ou a qualidade do sistema de som e microfones das salas onde uns poucos privilegiados puderam assistir ao vivo às suas aulas. A qualidade dessas gravações, ou melhor a falta desta, longe de ser um impedimento ajudou a cultivar o mito de Michael Parenti enquanto orador. Yellow Parenti, por exemplo, é um clássico que colecciona milhões de visualizações nos vários uploads disponíveis.
Como para muitos outros, o meu primeiro contacto com suas ideias foi transformador, uma lufada de ar fresco para alguém afogado em propaganda. Descobri a sua obra já entrado nos meus 30 e, apesar de sempre ter considerado ser um socialista desperto para os jogos de poder, com Parenti a política e a história deixaram de ser apenas uma sequência confusa e isolada de eventos: a sua análise metia a nu as relações de poder e permitia identificar os padrões estruturais imutáveis. Os seus dotes oratórios conduziram-me posteriormente aos seus livros, destacando abaixo os 5 que tive oportunidade de ler.
A Obra Literária
Michael Parenti escreveu vinte e quatro livros que se tornaram referências para gerações de socialistas e anticapitalistas. Mas o que torna a obra de Parenti única é o seu domínio da linguagem e a sua capacidade em produzir uma análise de leitura acessível, utilizando uma escrita simples, directa e emocionalmente incisiva, que evita jargão académico excessivo. A obra literária de Michael Parenti convida o leitor a ir além dos slogans e a examinar as condições materiais que moldam sistemas políticos. Comum a toda a sua obra encontramos o compromisso com a complexidade histórica e a intenção revelar as estruturas invisíveis de poder que sustentam as iniquidades sociais.
Num dos seus primeiros livros - Democracy for the Few (1974) - desconstrói a visão idealizada do sistema político norte-americano, demonstrando que os Estados Unidos não devem ser vistos como uma democracia ao serviço da maioria, mas sim um sistema político amplamente controlado por elites económicas e interesses estabelecidos. Segundo Parenti, a existência de instituições democráticas e eleições serve apenas para manter aparências e esconder a realidade dum poder submisso ao poder corporativo. Anos antes de Herman e Chomsky publicarem Manufacturing Consent: The Political Economy of the Mass Media (1988), já Parenti analisava em Inventing Reality (1986) o papel da comunicação social corporativa na construção de consensos e na fabricação de narrativas que favorecem as elites económicas e políticas. Parenti compreendeu e descreveu que o enviesamento não reside naquilo em que os jornalistas acreditavam, mas sim naquilo que, estruturalmente, lhes era permitido dizer.
Blackshirts and Reds (1997), é uma de suas obras mais controversas por desafiar abertamente a leitura simplista da Guerra Fria feita no Ocidente. É um livro que recusa a equivalência automática entre socialismo e tirania, e insiste na contextualização de processos históricos e na avaliação de experiências concretas, em vez de utilizar caricaturas ideológicas. Não se trata de negar erros ou abusos, mas de questionar o enquadramento unilateral que sempre dominou o discurso ocidental. Parenti, neste campo, destaca-se particularmente dos demais intelectuais de esquerda como um dos poucos que nunca hesitou em defender processos revolucionários comunistas e socialistas contra o reacionarismo liberal.
Em To Kill a Nation (2001), livro que lhe custou a sua amizade com Bernie Sanders, Parenti procurar desmontar a narrativa dominante sobre as guerras dos Balcãs apresentando a destruição da Jugoslávia não como uma necessidade humanitária, mas como um projecto que visava destruir o seu sistema socialista e a sua resistência à expansão da agenda neoliberal. No livro detalha como as pressões financeiras ocidentais, o apoio a movimentos secessionistas e alegações de atrocidades não verificadas ajudaram a fabricar consentimento para a intervenção da NATO, padrão repetido mais tarde nas guerras contra o Iraque e a Líbia.
Mesmo quando escrevia sobre a Antiguidade, Parenti escrevia sobre o presente e a universalidade atemporal das dinâmicas de poder. Em The Assassination of Julius Caesar: A People’s History of Ancient Rome (2003) analisou o fenómeno da luta de classes entre patrícios e plebeus e a forma como os historiadores romanos da época e outros mais recentes como Edward Gibbon, eles próprios aristocratas, enquadraram o assassinato de Júlio César, um reformador popular, como um nobre acto de tiranicídio. Contrariamente, Parenti relata que o apoio dado por César a reformas que beneficiavam os populares, incluindo o alívio da dívida, a redistribuição de terras e o alargamento da participação política, fizeram deste inimigo da elite senatorial, que o assassinou não num exercício altruísta de defesa da república, mas sim para proteger os seus interesses de classe.
(Desconheço qualquer edição da obra literária de Michael Parenti em Portugal, podendo os livros O assassinato de uma Nação, Os Camisas Negras e a Esquerda Radical, A Cruzada Anti/Comunista e o O Assassinato de Júlio César serem encontrados em versões portuguesas do Brasil.)
Ideário e Legado
Mais do que um intelectual interessado em desenvolver uma teoria da realidade, Parenti foi um educador focado na análise da realidade material. Muitas vezes identificado como Marxista, Parenti contra-argumentava que a realidade é que é marxista, chegando a dizer numa palestra em resposta à classificação da sua análise como marxista que “não era Marx, não era Parenti, é a realidade, é o que é, e acontece que a realidade é que é marxista”. Nesse sentido, podemos dizer que Michael Parenti tinha uma visão marxista do mundo. Mas o seu activismo e obra destacaram-se sempre pela crítica ao capitalismo e ao imperialismo. Embora nunca tenha assumido abertamente ser comunista, Parenti também nunca hesitou em oferecer uma defesa dos sistemas comunistas (da União Soviética ao Vietname e Cuba) e socialistas (sandinismo e chavismo) em contraposição aos regimes capitalistas. Em 1974, foi o candidato do partido socialista democrático Liberty Union ao Congresso dos Estados Unidos no estado do Vermont. Marxista, comunista, socialista foram sempre epítetos secundários para Michael Parenti. O que o movia era a crítica aos sistemas de poder, defendendo que a concentração económica e a promiscuidade entre a política e o poder económico minavam a justiça social indispensável a qualquer projecto democrático autêntico. Movia-o a profunda convicção moral de que a democracia deve significar poder real para as maiorias.
Ler Parenti e assistir às suas palestras é adquirir as ferramentas para compreender a nossa realidade. Daí que a sua morte não encerre sua influência. Muito pelo contrário, liberta e eleva a sua análise. Michael Parenti não buscava reverência em seguidores passivos, mas o cepticismo de cidadãos conscientes. A sua voz, agora silenciada fisicamente, continuará a questionar quem exerce o poder, como o exerce, ao serviço de quem? E talvez essa seja a maior homenagem possível: mantermos viva a sua prática de questionamento crítico.




