Esta semana a rentabilidade a 30 anos das obrigações do Tesouro dos EUA chegou aos 5,3%, o nível mais elevado desde 2007, num momento em que começa a ser clara a incapacidade do mercado continuar a absorver os volumes crescentes de dívida norte-americana. (Para contexto, as emissões de obrigações de longo prazo da República Portuguesa têm apresentado taxas de juro indicativas de referência geralmente entre 2,9% e 3,9%.)
Consequentemente, com a aproximação das eleições intercalares e o risco que essa rentabilidade acarreta para as taxas dos créditos à habitação e os custos de financiamento dos consumidores, o Tesouro Americano anunciou na quarta-feira (dia 19 de Agosto) que o Governo federal iria aumentar as recompras das suas próprias obrigações de longo prazo, duplicando o montante de cerca de 2 mil milhões para 4 mil milhões de dólares. A reacção do mercado foi imediata, os preços das obrigações recuperaram e as rentabilidades recuaram, mas curta, já que em menos de 24 horas esses ganhos desapareceram.

A questão de fundo é que a sustentabilidade da hegemonia do dólar está a ser progressivamente posta em causa por uma combinação de fragilidade fiscal, utilização geopolítica da moeda e crescente instabilidade internacional. Esse estatuto excepcional, delineado em 1944 na conferência de Bretton Woods, resulta do uso do dólar como moeda referência mundial. Isso significa que países, bancos centrais e empresas necessitam de dólares para efectuar transacções no mercado internacional e uma parte dessas reservas regressa aos EUA obrigatoriamente através da compra de treasuries. Durante décadas, este processo permitiu aos Estados Unidos financiar défices públicos e externos em condições que seriam impossíveis para praticamente qualquer outro país. Em bom portugues, isso permitiu aos EUA viver à grande e à francesa. Mas a introdução progressiva de riscos geopolíticos na relação, como a utilização extensiva de sanções financeiras, o congelamento de activos e a exclusão de entidades estrangeiras da arquitectura financeira dominada pelos EUA, fragilizou esse excepcionalismo do dólar .
Durante décadas, o sistema funcionou graças ao sistema monetário vigente que é extraordinariamente favorável aos EUA. O mundo necessita de dólares para comércio, reservas e transações financeiras. Em vez de trocar o dinheiro de volta, os EUA depois obrigam os países terceiros a reinvestir parcialmente os dólares acumulados em Treasuries.
Voltando ao presente, os EUA deverão registar um défice de cerca de 1,9 milhões de dólares em 2026, equivalente a 5,8% do PIB, apesar de não estarem em recessão. A dívida detida pelo público já ronda 101% do PIB e, segundo o Congressional Budget Office, poderá atingir 120% em 2036, enquanto os encargos líquidos com juros deverão duplicar de $1 mil milhão para cerca de $2,1 mil milhões. Isto significa que os EUA têm nas mãos um problema enorme de financiamento a longo prazo, colocando em causa a própria solvência do Governo Federal. Por conseguinte, o preço que os investidores exigem para absorver quantidades cada vez maiores de dívida está a aumentar, reconhecendo o risco da dívida americana.
É aqui que entra o Japão, o maior detentor estrangeiro de dívida pública norte-americana. As reservas japonesas de activos denominados em dólares constituem uma das principais linhas de defesa de Tóquio num momento em que a intervenção do Banco Central Japonês é necessária para sustentar o Iene. O Iene está a passar por uma fase de perda de valor, em parte devido à diferença entre as taxas de juro japonesas e norte-americanas. Para manter a solvência da sua própria moeda, o Japão precisa de comprar ienes, o que requer dólares. Dólares que o Japão só pode ir buscar vendendo Treasuries, o que, por sua vez, levaria à queda dos preços dos Treasuries, resultando na súbida dos juros da dívida americana. Para minimizar esse efeito, recentemente o Tesouro norte-americano vendeu parte dos euros das suas próprias reservas (descalçando a bota à zona EURO) para comprar ienes, atrasando a necessidade do Japão em liquidar Treasuries americanos para se financiar.
Em paralelo, a Casa Branca tem promovido mecanismos que permitem aos bancos centrais estrangeiros obter liquidez em dólares utilizando Treasuries como garantia, em vez de os vender no mercado. Tudo para preservar a liquidez do mercado de dívida pública norte-americana. Mas essa arquitectura tornou-se progressivamente mais difícil de sustentar quando a quantidade de dívida emitida começou a crescer mais rapidamente do que a procura estrutural por essa dívida. Basta olhar para os números fiscais para perceber a dimensão do problema. Os EUA enfrentam défices anuais próximos dos 2 mil milhões de dólares, enquanto os encargos com juros da dívida federal ultrapassaram a barreira de 1 mil milhão de dólares por ano. A solução tem sido impressão de dinheiro e mais emissão de Treasuries. Só que o aumento da rentabilidade dos Treasuries traduz-se obrigatoriamente em maiores encargos com juros, défices maiores e eventualmente a necessidade de emitir ainda mais dívida. Resultado: inflação, taxas de juro elevadas, confiança dos investidores posta em causa e valor externo do dólar questionável.
Com a diminuição da disposição e capacidade do resto do mundo em acumular dólares e a reciclar uma parte substancial desses dólares em activos norte-americanos, sobretudo Treasuries, o privilégio fiscal proporcionado pela hegemonia internacional do dólar tornou-se mais caro de manter. E com as sanções secundárias e o controlo da efectivo da arquitectura financeira internacional cada vez mais insuficientes a travar esta erosão, não seria surpreendente assistir nos próximos tempos a uma intensificação da projecção militar dos EUA para além das suas fronteiras, numa tentativa de preservar pela força aquilo que se torna progressivamente mais difícil garantir através da moeda e do sistema financeiro.
O autor desta resenha vive e trabalha em Washigton DC desde 2014.


